quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Corrida virtual, afinal é o que temos para hoje: TikTok Santander Track&Field Run Series

Desnecessário e até meio batido dizer que 2020 foi um ano atípico, diferente de tudo aquilo que já vivemos. Se em janeiro eu tinha planos de correr novamente uma maratona, colocando provas de meia no meu calendário para começar a preparação e botando como meta correr pelo menos 1.000km no ano, em março tive que me adequar a uma nova realidade. E em maio, com a obrigatoriedade do uso de máscaras ao sair de casa, acabei dando um tempo com a corrida.

Conversando com outros amigos corredores, e olhando pela janela de casa, vi que muita gente estava saindo para correr de máscara. Resolvi pesquisar um pouco sobre isso na internet, e vi que a prática estava mais disseminada do que eu imaginava. Claro que não é recomendado se puder ser evitado, mas não chega a ser algo tão proibitivo também. O desempenho obviamente não é o mesmo, e nem é recomendável fazer grandes distâncias também. Mas pelo menos é melhor do que ficar parado, não é mesmo? Então lá pelo final de agosto acabei aderindo a essa prática, mas limitando meu treino a curtas distâncias.

Claro que conheço e vejo por aí gente correndo sem máscara, apesar da obrigatoriedade imposta pelas autoridades locais. Não quero fazer aqui nenhum juízo de valor das pessoas que correm sem máscara, muito menos questionar a necessidade do decreto ou a eficácia da medida no combate à disseminação do vírus. Existe material de sobra na internet a respeito deste assunto. Quero apenas deixar registrada a minha opinião acerca disso tudo. E a minha opinião é que enquanto existir a obrigatoriedade de uso de máscara, goste-se dela ou não, concorde-se com ela ou não, trata-se de uma exigência das autoridades e deve ser cumprida. Portanto só voltarei a correr sem máscara no dia que isso for permitido.

Enfim, os primeiros treinos de máscara me mostraram que correr desse modo não era tão ruim assim afinal. E em algumas semanas eu já estava até conseguindo pegar um ritmo de treino bacana. Mas ainda assim, nada de fixar metas, apenas correndo para manter a saúde mesmo.

Ao longo do ano fui tomando conhecimento também das corridas virtuais. Funcionam assim: você baixa o aplicativo da corrida no seu celular, e no dia marcado da corrida você habilita o GPS, abre o app e inicia a corrida. Pode ser em qualquer lugar, desde que você cumpra a distância estabelecida pelos organizadores. Dependendo do evento, existe kit com camisa e até medalha. 

Claro que uma corrida virtual não chega aos pés da corrida presencial. Não é possível substituir a beleza da maratona do Rio (a menos que você more lá), o charme da avenida Paulista na chegada da São Silvestre ou o calor humano da praia de Santos em uma corrida da Tribuna. Se for para correr perto de casa, então faço isso de graça mesmo. Desse modo não me interessei por participar de corridas virtuais em um primeiro momento.

Ainda assim, já no mês de dezembro tomei conhecimento de uma corrida virtual organizada pela Track&Field no último fim de semana antes do Natal. Como era fim de ano e eu não havia participado de nenhuma corrida, pensei em participar até para não passar em branco. E um motivador extra foi que a corrida tinha um caráter beneficente: parte do dinheiro da inscrição seria doado para instituições de caridade para o Natal. Sem falar que seria algo diferente, para ser feito uma vez e depois poder relatar a experiência. Desse modo, decidi por me inscrever na prova de 5k, visto que não estava correndo grandes distâncias com máscara. As modalidades de 10k e 21k também estavam disponíveis.

A janela para realização da corrida era entre 05:00 e 22:00 do dia da corrida. Não sei ao certo por qual motivo (certamente não era ansiedade de correr), acabei acordando e perdendo o sono por volta das 04:30. Como não houve horário de verão, o dia já até começava a clarear dada a proximidade do solstício. Decidi comer alguma coisa, me arrumar e sair para correr logo de manhã cedo mesmo.

Foi muito estranho sair de casa para correr uma prova, sem ter que me preocupar com o horário de saída, nem com o trânsito para chegar no local da largada, nem com guarda-volumes ou fila de banheiro químico. Nada de local de largada aglomerado. Nada de caminhão de som com alto-falante anunciando a contagem regressiva para o início da corrida. Ao invés disso, precisei simplesmente chegar à pé até o ponto que costumo começar meus treinos, abrir o aplicativo pelo celular e clicar no botão de iniciar a corrida. De fato, pelo horário a janela de realização da prova já estava aberto e o aplicativo me permitia fazê-lo. Ao clicar no botão uma vez ele me pedia a confirmação de que queria começar. Ao clicar pela segunda vez, ele começou uma contagem regressiva e em 3, 2, 1... estava valendo!

Fiz o mesmo percurso que já estava habituado a treinar. Ele possui cerca de 2.5km, de modo que fiz duas voltas. Comecei a minha corrida por volta das 05:15 da manhã. O tempo estava bom, tudo indicando que faria um lindo e quente dia de sol de verão. Mas como ainda era muito cedo, a temperatura estava relativamente baixa e o ar estava fresco. Ou seja, estava ideal para uma boa corrida!

E foi mesmo! Como se tratava de uma prova, logo vinha aquela vontade dar um gás a mais e fazer um bom tempo. Por mais que não seja muito recomendado fazer isso de máscara, aquele "instinto de corredor" me impulsionou a buscar fazer o trajeto no menor tempo possível. Dado o horário que corri, não encontrei uma alma viva na rua, de modo que poderia muito bem ter saído pra correr sem máscara. Seja como for, por respeito ao decreto e também por querer ter uma base justa de comparação entre a corrida e meus treinos normais, mantive a máscara no rosto durante todo o percurso.

Por sinal, não tenho muito o que escrever sobre o percurso dessa vez. Quem acompanha esse blog sabe que gosto de descrever as paisagens, os nomes das ruas, avenidas, praças, os monumentos que marcam os percursos das corridas que participo. E uma das coisas que mais gosto nessas corridas de rua é esse lance de correr em lugares diferentes. Já descartei participar de corrida porque o percurso era o mesmo de outras provas que já tinha realizado. Mas dessa vez o percurso era o mesmo "arroz com feijão" que eu já estava acostumado.

Ao final da minha segunda volta, nem precisei me preocupar com finalizar a corrida no aplicativo. Quando ele detectou que eu havia completado 5k, a corrida foi automaticamente encerrada. Curiosamente meu relógio alegava que ainda faltavam cerca de 100-200m para completar 5k, de modo que continuei correndo até completar a distância no meu relógio também. O tempo registrado pelo aplicativo foi de 26m52s e no meu relógio 27m29s. Um pouco estranho terminar a corrida sem cruzar um pórtico de chegada com um relógio em cima mostrando seu tempo bruto. Em geral, avistar o pórtico já é aquele incentivo para o "sprint final", mas não foi o caso. Também achei estranho finalizar a corrida sem pegar isotônico, fruta, além é claro da medalha. 

Por esse motivo, vou ter que finalizar o post sem a foto da medalha. Fica no entanto o registro da minha participação da corrida através da figura gerada pelo aplicativo com meu tempo oficial. Foi estranho, mas foi divertido. E quem em 2021 as provas presenciais possam retornar!


sábado, 8 de agosto de 2020

Ao vivo é mais divertido: Maratona Olímpica de 2016


Comentei aqui em outro post sobre o dia que carreguei a tocha olímpica. Nele, comentei sobre o meu interesse sobre esportes, e mais especificamente sobre as Olimpíadas, desde que eu era pequeno. E sempre tive também um gosto muito grande por acompanhar eventos esportivos ao vivo, tais como jogos de futebol, basquete e automobilismo. Já havia até tido uma experiência olímpica antes: em 2006, durante período de intercâmbio na Itália, acompanhei um jogo de hóquei no gelo na Olimpíada de Inverno de Torino. E obviamente, com os Jogos de Verão sendo sediados no Rio de Janeiro, era uma grande oportunidade para acompanhar ao vivo diversas modalidades.

Curiosamente, eu nunca havia comparecido para acompanhar ao vivo nenhuma corrida de rua. Apenas para participar. E na Olimpíada acontece aquela que é talvez a mais importante das corridas: a maratona olímpica. Decidi então que iria assistir a essa corrida ao vivo. Até mesmo porque a largada e a chegada seriam na Marquês de Sapucaí, cartão-postal da cidade do Rio de Janeiro que eu nunca havia visitado.

Diz a lenda que na Antiguidade, logo após uma batalha travada na cidade de Maratona, localizada a cerca de 40km de Atenas, o mensageiro Fidípides foi enviado para Atenas para relatar a vitória dos atenienses. Ele correu sem parar o mais rápido que podia e ao chegar só teve forças para dizer "Vencemos!" antes de cair morto. Em homenagem a essa história, na primeira edição dos Jogos Olímpicos, em Atenas-1896, foi criada uma modalidade especial que seria a corrida entre as cidades de Maratona e Atenas. A essa corrida deu-se o nome de "maratona". Trata-se de uma das competições que esteve presente em todas as edições dos Jogos Olímpicos. A distância de 42,195km foi fixada nos Jogos de 1908, realizada em Londres, na qual os atletas fizeram um percurso entre o Castelo de Windsor e o Palácio de Buckingham, para que membros da família real pudessem assistir à largada e à chegada. 

Dentre os momentos mais marcantes (que eu conheço) da história da maratona olímpica, destaco três. O primeiro foi nos Jogos de Helsinque-1952, quando o finlandês Emile Zatopek foi o campeão das provas dos 5.000m, 10.000m e da maratona na mesma edição. O segundo foi a trajetória do etíope Abebe Bikila, que correu descalço e ganhou a maratona em Roma-1960. Preocupados com o impacto que isso poderia ter nas vendas de seus tênis, algumas marcas fizeram lobby para proibir que atletas corressem descalços em Tóquio-1964. Bikila se viu obrigado a correr calçado, e com a corrida já ganha, a poucos metros da linha de chegada, ele tirou os tênis e completou a prova descalço. Tornou-se assim o primeiro bi-campeão olímpico de maratona (feito apenas igualado pelo alemão Waldemar Cierpinski em Montreal-1976 e Moscou-1980). Finalmente, a edição de Los Angeles-1984 ficou marcada por ser a primeira a ter uma prova feminina da maratona. E nessa corrida aconteceu um dos episódios mais marcantes da história olímpica. A suíça Gabriela Andersen-Schiess entrou se arrastando no estádio olímpico, recusou-se a receber qualquer tipo de ajuda para não ser desclassificada, e cruzou a linha de chegada com o simples objetivo de completar a prova, visto que já estava fora da briga pelas medalhas. Esse é uma das fotos mais emblemáticas dos Jogos Olímpicos.
Bom, e quanto à Rio-2016? Como já deixei bem explícito, escolhi a maratona olímpica como uma das competições de maior interesse para acompanhar ao vivo. O primeiro lote de ingressos disponibilizado para o público foi no esquema de sorteio. Você entrava no site, selecionava os seus eventos de interesse e após o período de inscrição te informavam se você havia sido ou não sorteado. Acho que a maratona não atraiu tanto assim o interesse, de modo que foi a única competição que consegui ser sorteado nesse primeiro lote. Depois ainda consegui ingressos para outros eventos, mas fiquei feliz de ter conseguido esse logo na primeira oportunidade.
O dia amanheceu nublado e com leve chuva. Felizmente eu já saí equipado com capa de chuva para acompanhar o evento. E claro, para entrar no clima fui acompanhar o evento vestindo a camiseta do kit da corrida da Maratona de São Paulo e o boné do kit da Maratona do Rio. Cheguei cedo, a tempo de pegar a largada, a qual pude acompanhar da arquibancada. Não eram muitos atletas participando, e pra ser bem sincero, eu não conhecia nenhum dos principais favoritos. A única coisa marcante sobre a corrida que eu sabia é que ali seria a despedida do Marílson Gomes dos Santos, maratonista brasileiro que ganhou duas vezes a Maratona de Nova Iorque, nas edições de 2006 e 2008, e três vezes a São Silvestre, em 2003, 2005 e 2010. Chegou em quinto lugar na maratona olímpica de Londres-2012 e veio se despedir no Rio. Sem grandes chances de medalha, mas ainda assim contava com minha torcida e era um fato marcante para a corrida.
Após a largada ocorreu o desfile de uma escola de samba ali na Sapucaí para entreter o público presente. E era possível ao mesmo tempo acompanhar a corrida através dos telões. Achei uma corrida interessante, pois começou com o pelotão praticamente inteiro no mesmo ritmo, e aos poucos um ou outro atleta ia ficando pelo caminho e o pelotão ia diminuindo. O percurso era basicamente seguindo a orla de algumas praias da Zona Sul do Rio, com bastante gente acompanhando nas ruas. E já no final da prova, quando o percurso mudou para o centro antigo da cidade, passando pela região portuária que havia sido revitalizada, não havia mais pelotão: um corredor queniano havia se distanciado de todos os demais.
Queria ter a noção da velocidade de um maratonista campeão olímpico, e por isso fiz questão de acompanhar a chegada do queniano ali de perto. Fiz um vídeo amador da passagem dele ali onde eu me encontrava na Sapucaí. Achei impressionante como o queniano apresentava um semblante absolutamente tranquilo e focado em sua corrida. Não era o Marílson, não era um brasileiro, mas estava claro que tratava-se de um verdadeiro campeão olímpico. E isso por si só já me deixava muito feliz. E não era uma percepção apenas minha. O comentário que eu mais escutava das outras pessoas à minha volta acompanhando o evento era exatamente o mesmo: todo mundo impressionado com o campeão que se apresentava para todos nós.


Já em casa, de noite, acompanhei a cerimônia de encerramento da Olimpíada, na qual é feita a entrega das medalhas da maratona. E então fiquei sabendo o nome do queniano: Eliud Kipchoge. E hoje, olhando para trás, vejo que nascia ali um novo ídolo para mim. Pois desde então passei a acompanhar a trajetória desse queniano maratonista e de seus feitos notáveis. Mas sobre esses feitos, talvez eu escreva em uma próxima oportunidade. Por enquanto, encerro esse post com a foto de Eliud Kipchoge cruzando a linha de chegada na Sapucaí e o encerramento da minha experiência com a maratona olímpica.

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

A emoção de conduzir a Tocha Olímpica

Esse post não é bem sobre uma corrida. Mas a ideia de escrever um blog nasceu para que eu pudesse registrar em algum lugar as diversas histórias de corrida que eu tinha pra contar. E as coisas que as pessoas me perguntam a respeito. Então porque não escrever sobre o dia em que conduzi a tocha olímpica?

A bem da verdade, tudo começou na Olimpíada de Atlanta-1996, quando vi na TV que cidadãos comuns estavam participando do revezamento da tocha olímpica quando a mesma foi sediada nos Estados Unidos. Eu, na época com apenas 12 anos, pensei que seria realmente um sonho se um dia eu pudesse participar do revezamento. Quando o Rio de Janeiro foi escolhido como sede para os Jogos de 2016, logo me ocorreu que seria a chance da minha vida. Por isso mesmo logo fui me informando sobre como seria o percurso do revezamento, quais cidades estariam envolvidas e como eu poderia me inscrever para participar.

Cabe aqui uma nota explicativa sobre como se dá o Revezamento da Tocha Olímpica. Ele sempre se inicia na cidade de Olímpia, na Grécia, com uma encenação teatral na qual sacerdotisas invocam os deuses gregos da Antiguidade para acender o fogo olímpico. Nessa cerimônia participam autoridades do Comitê Olímpico Internacional e também do Comitê Organizador da edição corrente dos Jogos Olímpicos. No caso, representantes do Comitê Olímpico Brasileiro e da organização da Rio-2016 estavam presentes. Após essa cerimônia, o fogo olímpico é passado de uma tocha para outra em um revezamento envolvendo vários condutores diferentes até a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos. Nessa ocasião, um representante do país sede é escolhido para acender a Pira Olímpica e dar início aos Jogos. Em geral escolhem um atleta que tenha se destacado em uma edição anterior dos Jogos.

Sobre isso, queria fazer uma pequena digressão no post. Mas, na minha opinião, na Rio-2016, fizeram uma justa homenagem ao escolherem o maratonista Vanderlei Cordeiro de Lima, medalha de bronze em Atenas-2004, para acender a pira. Aquela edição da maratona olímpica ficou marcada porque o brasileiro liderava a prova com boa vantagem depois do km30 quando um padre irlandês invadiu a pista e o abraçou, fazendo-o perder tempo. Especialistas dizem que o ritmo do brasileiro vinha caindo e acabou melhorando depois do episódio, talvez por uma questão psicológica, de tal modo que possivelmente ele nem chegaria em terceiro lugar na corrida. Mas seja como for, o fato de ele ter continuado na corrida até o final foi um sinal incrível de esportividade, que lhe rendeu inclusive uma medalha especial, a "Barão de Coubertin", do Comitê Olímpico Internacional, por ter encarnado o espírito olímpico.

Retomando, qual percurso é realizado pela chama desde Olímpia até, no caso, o Rio de Janeiro? E quem são os condutores da tocha? Essa decisão coube ao Rio-2016. Nessas horas o COI pouco interfere. Para se ter uma ideia, nos Jogos de Atenas-2004, como o trajeto seria muito curto, decidiram que a tocha visitaria todas as cidades que já haviam sediado os Jogos Olímpicos em alguma oportunidade, e que passaria também por todos os continentes. Como nunca havia sido realizada uma Olimpíada na América do Sul, mas para incluir nosso continente nesse revezamento escolheram o Rio de Janeiro, que já havia se candidatado para receber uma edição dos Jogos anteriormente, para receber o revezamento. Atletas que já haviam representado o Brasil nos Jogos foram escolhidos para conduzir a tocha naquela ocasião.

Mas e desta vez, na Rio-2016? Como foi feita a escolha? O processo seletivo foi um tanto confuso, eu diria. Eram cerca de 11 mil vagas para condutores, e o processo foi dividido entre o site da Olimpíada e promoções realizadas pelos patrocinadores do evento do Revezamento da Tocha. No caso, como pode-se ver no logotipo oficial do Revezamento, eram a Coca-Cola, a Nissan e o Bradesco. Cada qual abriu um concurso no qual os trabalhos mais criativos seriam escolhidos. Já pelo site oficial do revezamento, você também poderia participar. Para tanto você deveria ser indicado por algum conhecido por alguma coisa que tivesse feito. Quantos selecionados seriam por cada processo é algo que eu desconheço. Fato é que não participei das promoções dos patrocinadores, até porque tenho certeza que não seria capaz de fazer um vídeo criativo para ganhar. Meu pai acabou escrevendo no site um pouco sobre meu gosto por esportes, corrida de rua em particular e também sobre alguns trabalhos voluntários que já participei.

Ok, nunca fiz nada de sensacional nem digno de nota em prol do esporte nacional e muito menos posso dizer que sou um voluntário tão dedicado quanto gostaria. Mas fato é que a história foi aceita no site, não foi descartada logo de cara. Entretanto, justamente por não ser uma história muito especial, fui colocado numa fila de espera. Fiquei um pouco chateado com isso, principalmente ao ver que em muitos lugares estavam convidando diversos artistas que não possuem nenhum vínculo com o esporte para serem condutores. Pelo menos em São José dos Campos fiquei mais tranquilo ao saber que os convidados da prefeitura eram de fato atletas amadores e ex-atletas olímpicos, como a nadadora Fabíola Molina.

Eu já estava completamente desencanado com essa história de Revezamento da Tocha quando chegou na véspera do dia. Eis que na noite anterior meu telefone toca com um número desconhecido. Atendo e perguntam pelo meu nome. E o rapaz me pergunta se eu ainda tinha interesse em ser condutor da Tocha Olímpica. Pelo visto ele estava ligando para as pessoas selecionadas para confirmar a participação e deve ter tido alguma desistência, ou pode não ter conseguido o contato de alguém. Então estavam passando os nomes da lista de espera para preencher as vagas remanescentes. O único detalhe é que eu teria que me deslocar até a cidade vizinha de Jacareí para participar, pois as vagas em São José já estavam todas preenchidas. Aceitei então o convite de última hora e no dia seguinte parti para Jacareí logo após o almoço.

Cheguei na prefeitura de Jacareí, ponto de encontro designado, logo após o almoço. Eu não conhecia nada por ali, mas achei o lugar simpático. Pouco após chegar e encontrar os demais condutores, recebemos algumas instruções sobre como proceder e ganhamos nossos uniformes e as tochas. Deu pra perceber uma preocupação muito grande dos organizadores para que todos os condutores se sentissem absolutamente confortáveis e principalmente felizes com o momento. E mais que isso, que eles pudessem contagiar o público nas ruas com essa alegria. Afinal, este é o grande objetivo do evento do revezamento da chama olímpica: levar um pouco do espírito olímpico a todo o público. Principalmente àqueles que não irão poder comparecer aos Jogos.

A tocha estava um pouco atrasada (estava sendo realizado o revezamento em 4 cidades naquele dia, sendo Jacareí a terceira) mas logo todos nós condutores fomos conduzidos a um micro-ônibus. Cada condutor recebeu uma numeração, e fomos convidados a nos apresentar para os demais condutores contando um pouco de nós mesmos. O que mais me chamou a atenção foi a quantidade de jovens, alguns até menores de 18 anos (a idade mínima para ser condutor da tocha era de 16 anos) que estavam ali por serem jovens atletas que representam a cidade de Jacareí em competições juvenis.

Logo o ônibus saiu da prefeitura e foi fazendo paradas para que os condutores fossem descendo um após o outro. Fui o penúltimo a descer, e fiquei ali sozinho em uma simpática rua da cidade esperando a minha vez chegar. Não havia ninguém da organização por perto. Mas não demorou para que começassem a aparecer os curiosos. Logo vieram me perguntar se eu era condutor, se aquela tocha era de verdade, e principalmente se poderiam tirar foto comigo. Por um momento me senti uma celebridade. Mas claro que eu continuava sendo apenas um anônimo. Para aquelas pessoas eu era apenas "o cara da tocha". Mas foi muito legal ver as pessoas querendo tirar foto do lado da tocha, ou então com a tocha posicionada em algum lugar específico (por exemplo na frente do bandeirão de um clube sediado por ali). As mães pedindo para os filhos se aproximarem para verem a tocha de perto e tirarem foto. Ou o garoto na foto abaixo aproveitando para tirar uma selfie. E o mais gratificante de tudo era ver a alegria estampada na cara de todos (principalmente das crianças) apenas porque estavam tendo a chance de tirar uma foto com a tocha olímpica tão de perto.


Em alguns minutos, vi os carros dos patrocinadores se aproximando e passando por mim, e finalmente a escolta da guarda nacional que trazia o condutor anterior com a tocha. Logo, um membro da guarda nacional me puxou para o meio da rua, abriu o gás da minha tocha e me posicionou de tal forma a receber a chama do condutor anterior. Era chegada a minha vez. A chama olímpica estava comigo. Cabia a mim a incumbência de carregá-la pelos próximos 200 metros e levá-la mais próxima da Olimpíada e das pessoas. Acho que me empolguei um pouco no começo e achei que estava em uma corrida de rua. De fato acho que saí correndo. Logo vi o fotógrafo que ia no carro da frente fazendo um sinal com a mão para eu reduzir o ritmo. Percebi isso e comecei a ir num trote muito mais leve. Mais ou menos na mesma hora chegamos a uma lombada, e um dos membros da guarda nacional me alertou para reduzir ainda mais. Vi também que o fotógrafo continuava fazendo o mesmo gesto, então imaginei que eu estava segurando a tocha muito em cima. Acabei baixando um pouco o braço e recebi um "jóinha" de volta. Olhei em volta, vi as pessoas felizes por estarem ali, aplaudindo a tocha. Acenei de volta e ainda soltei gritos de "Vai Brasil!" para algumas pessoas que estavam vestindo camisas da seleção. Eu também estava em um momento muito feliz por estar ali fazendo parte de tudo aquilo. Afinal, sempre gostei muito das Olimpíadas, principalmente por essa ideia de ver o esporte aproximando as pessoas e promovendo a paz entre os povos. Seria muito bom se hoje em dia fosse que nem era na Antiguidade, que todas as guerras e conflitos paravam durante 2 semanas para a Olimpíada. E o revezamento da tocha é o que há de mais simbólico nisso tudo, daí que eu estava realmente muito feliz com a oportunidade que me foi dada de fazer parte deste momento tão especial. Mas o que é bom dura pouco. Logo alcancei o próximo condutor, passei a chama olímpica adiante e fui conduzido de volta para o ônibus dos condutores. Entreguei minha tocha para a organização mas ainda tive oportunidade de tirar mais algumas fotos.

Como mencionei no começo do post, não se trata de uma história de uma corrida. Logo não posso encerrar este post com a foto de uma medalha. Deixo aqui então para finalizar a foto oficial do revezamento e também um certificado digital de condutor que recebi da organização. Eu até poderia ter adquirido uma tocha para recordação pessoal pela bagatela de aproximadamente 2 mil reais. Mas sinceramente, eu não fazia muita questão de guardar a tocha como recordação, mesmo sendo ela muito bonita. Além disso, o também belíssimo uniforme dos condutores para mim já é uma recordação pra lá de especial. Isso sem falar nas fotos, nos momentos, nas lembranças, que sempre marcarão esse dia para mim.