O ano era 2022. Embora o auge da pandemia já tivesse passado, ela ainda não havia terminado. Ainda estávamos em uma condição de manter o isolamento social sempre que possível. Cuidados com máscaras ainda eram necessários, sobretudo em ambientes fechados e sem circulação de ar. E eu seguia trabalhando na modalidade 100% remoto.
Eis que um belo dia me esposa me disse que iria passar alguns dias trabalhando em uma obra na belíssima praia da Riviera de São Lourenço, no litoral de São Paulo. E que estaria hospedada em uma casa de praia de uma amiga nossa. Oras, como para desempenhar meu trabalho eu só precisava de uma internet de boa qualidade, lá fui eu também!
E obviamente aproveitei para dar minhas corridinhas durante aquela semana. Na verdade foram apenas duas ocasiões. Chegamos na quarta-feira na Riviera. Fui correr na quinta-feira no final da tarde, logo após finalizar o expediente (foto acima). Apenas um trote leve, devem ter sido cerca de 8km apenas.
E é claro, precisava também de um treino em uma manhã de sábado, no qual aproveitei para puxar uma distância um pouquinho maior (mas sem exageros, fiquei nos 12km mesmo). Registrei o momento da bela manhã de sol na foto abaixo. Curiosamente, 3 anos depois, mesmo com a situação da pandemia já tendo sido finalizada, nunca mais voltei para correr na Riviera. Provavelmente por pura falta de oportunidade.
De todo modo, as lembranças desses dias permanecem.
Como escrevi no post de 2008, minha primeira participação na São Silvestre, correr esta prova era um sonho de criança. Naquela época, constatei que eu estava com 24 anos e era a 84a. edição da corrida. Logo, a aritmética básica indicava que a 100a. edição da São Silvestre ocorreria em 2024, quando então eu completaria 40 anos de idade. Prometi a mim mesmo, lá em 2008, que no que dependesse de mim, eu correria a 100a. edição da São Silvestre em 2024, aos meus 40 anos de idade. O tempo passou, muita coisa mudou na minha vida desde então. Terminei meu mestrado, fiz doutorado, cresci profissionalmente, casei, tive um filho. Criei este blog e fui registrando minhas corridas. Completei até 2 maratonas! Fiz minha parte! Mas quis o destino que a pandemia de COVID-19 cancelasse a prova em 2020, de tal modo que só me restou a opção de correr a 99a. edição da São Silvestre aos meus 40 anos de idade.
E lá fui eu! Fiz a inscrição logo no primeiro dia lá pelos idos de Setembro. O site estava lotado, demorei um pouco para conseguir, mostrando que mesmo com 37500 vagas eu corria o risco de não conseguir me inscrever. Mas deu tudo certo. Tirei férias em outubro com a família e tive apenas 2 meses para treinar. Isso somado à loucura de todo final de ano de conseguir finalizar tudo. Considerando que eu corri uma meia maratona em abril, não teria com o que me preocupar em completar uma prova de 15k (apesar da altimetria bastante desafiadora da São Silvestre). Mas o ponto aqui era outro: em 2008 completei a prova em 1h34min. Ritmo portanto inferior a 10km/h. Em 2012 tentei melhorar o tempo, mas fui ainda pior: 1h36min. Desta vez eu não queria apenas terminar. Eu tinha sim uma meta de tempo, que era completar abaixo de 1h30min!
No dia 30 de Dezembro, véspera da corrida, fui para São Paulo para pegar meu kit. Ao contrário das outras edições que participei, nas quais a retirada se deu no Ginásio do Ibirapuera, desta vez foi na Bienal de São Paulo, no Parque do Ibirapuera. O kit em si foi bastante simples: apenas o número do peito com o chip, a camiseta e a sacola. Nada de brindes. Pelo contrário, estava ocorrendo uma exposição de corrida na Bienal, com vários stands de patrocinadores da prova vendendo seus produtos. Também era possível ver alguns painéis legais, mostrando o mapa com o percurso da corrida, ou a lista de inscritos na parede. Não demorei muito para encontrar meu nome lá! Embora eu nunca tenha corrido uma maratona "major", sei que esse tipo de painel é bastante comum nessas provas. Acredito que tenha servido de inspiração para a organização da São Silvestre.
Veio então a manhã do dia 31 de Dezembro. Devido às chuvas que ocorreram durante toda a semana anterior, o clima estava bastante ameno, com um belo sol e céu azul. Estava um dia lindo, perfeito para uma corrida. A largada seria apenas às 08:00 da manhã, mas cheguei na Av. Paulista um pouco depois das 06:00 para conseguir um bom lugar para a largada. Tomei essa decisão de chegar bem cedo devido à minha experiência com a prova de 2012, na qual cheguei quase que em cima da hora da largada e saí no meio de uma muvuca que praticamente me impossibilitou de conseguir encontrar um bom ritmo de prova. Naquela ocasião fiquei quase que o tempo todo me acotovelando para encontrar meu espaço. Bem ao contrário de 2008, quando a corrida ainda era de tarde e eu havia chegado com pouco mais de 1 hora de antecedência.
Outro ponto que foi um diferencial foi a largada em ondas. No ato da inscrição precisávamos identificar um pelotão de acordo com nossa estimativa de tempo. O primeiro pelotão era o azul, com pace abaixo de 5 min/km e largava junto com a elite. O meu era o segundo, o verde, com pace entre 5 e 6 min/km. E o último era o vermelho, com pace acima de 6 min/km. Até aí, eu já participei de inúmeras provas assim. O diferente dessa vez é que de fato as quadras da Paulista estavam completamente isoladas com grades de ferro. Os únicos acessos para a pista eram as ruas laterais, com os fiscais de prova deixando entrar apenas quem de fato estivesse no pelotão que largaria daquela quadra. Após a largada do pelotão azul, ficamos aguardando um pouco. Logo, os fiscais da prova formaram uma corrente humana dando os braços e começaram a nos escoltar pela quadra seguinte até o pórtico de largada. Fomos liberados para a largada cerca de 15 minutos após o primeiro pelotão. Por um lado eu estava impaciente, doido para correr. Mas por outro, como bem disse um sábio corredor ao meu lado, isso era bom pois garantiria a dispersão do primeiro pelotão.
E de fato, na hora que foi dada a largada para o meu pelotão, consegui começar a correr e impor meu ritmo desde o começo. Algo que eu não havia conseguido nem mesmo na edição de 2008. A foto ao lado foi tirada logo após o término da Paulista, no acesso para a Av. Doutor Arnaldo. Durante alguns anos morei ali perto e passar pelo local me fez lembrar de uma lanchonete que eu costumava frequentar por ali. Não posso esconder que fiquei feliz ao constatar que a lanchonete continuava ali, no mesmo lugar de sempre, conforme eu esperava. Logo pegamos a descida bastante íngreme (e portanto perigosa) da Av. Major Natanael e contornamos o Estádio do Pacaembú. Nesse momento duas coisas interessantes aconteceram. A primeira e mais óbvia é que a proximidade de um estádio de futebol fez com que muitos corredores começassem a exibir suas preferências futebolísticas gritando os nomes dos seus times do coração. E a segunda é que mais ou menos por ali alcançamos o km2 da prova, e logo alcancei alguns "retardatários": pessoas caminhando, muitas delas com fantasias. Comecei a reparar no número do peito e haviam largado no pelotão anterior! Logo comecei a temer por pegar "trânsito" à frente. Afinal, aquele povo definitivamente se inscreveu no pelotão errado. Podem ter se confundido na hora da inscrição, ou nem reparado nesse ponto, ou então se inscreveram junto com algum amigo que queria fazer tempo e decidiram por largarem juntos. Enfim, os motivos podem ser os mais variados, mas fato é que esse é o tipo de coisa que atrapalha a vida de quem se inscreveu no pelotão certo. Ainda assim, dos males o menor: de fato os 15 minutos entre os pelotões funcionou e garantiu uma boa dispersão, de modo que lá pelo km4 a minha sensação é que não havia mais problema algum com os "retardatários".
Cruzei o km5 com 26 minutos de prova. Um tempo excelente e uma bela margem para a minha pretensão de tempo. Mas dada a altimetria da prova, não dava para comemorar muito: estávamos no ponto mais baixo do percurso. Até então, havia sido apenas descida, e dali pra frente, apenas subida. Mesmo focado no tempo e praticamente entrando "em flow", eu pude aproveitar e me deliciar com as maravilhas dessa corrida. Muita gente acompanhando a prova em vários pontos do percurso e dando seu incentivo. Ou apenas interagindo com os corredores mesmo. E assim foi ao longo do centro de São Paulo, passando perto de vários cartões-postais da cidade ou importantes pontos de referência. Mais ou menos na altura do km7,5, metade da prova, passamos pela Praça Princesa Isabel com a imponente estátua do Duque de Caxias. Passamos próximos ao edifício Copan, contornamos a esquida da Av. Ipiranga com a Av. São João, em vários pontos pude avistar o prédio do Banespa. E tudo isso com vários toques musicais de pessoas se apresentando, desde taiko (tambores japoneses), passando por bandas de rock (cover dos Beatles) e até mesmo um grupo tocando e dançando frevo no meio da avenida. Acho que nessa hora acabei desviando de algum corredor e passei sem querer no meio do frevo.
A hora avançava e começava a esquentar. Ainda assim, o clima estava muito agradável. Passei no checkpoint do km10 com a marca de 55 minutos. Ou seriam 56 minutos e uns quebrados? Na verdade nesse ponto já estava bastante evidente novamente uma diferente entre a marcação do meu relógio e a oficial da prova, em cerca de 300 metros. Talvez tenha acontecido por eu ter ficado zigue-zagueando para desviar de outros corredores, em especial entre os km2 e 4 da prova.
Segui pelas ruas do centro de São Paulo. Contornei o largo do Paysandú, o belíssimo Teatro Municipal de São Paulo, quebrei para outras ruas e logo veio o último posto de água no início da subida da Av. Brigadeiro Luiz Antônio. Eu sempre tomo um pouco de água e jogo outro tanto no rosto para me refrescar. Um fotógrafo registrou esse momento e gostei tanto da foto que decidi por incluí-la aqui. E na sequência, a subida começou a apertar. Muito famosa por ser o ponto em que muitas corridas do pelotão de elite foram decididas, mas também por ser algo muito comentado entre os próprios corredores amadores. Lembro-me de nas outras edições ver muita gente caminhando, e que por ter conseguido me manter correndo, ainda que em ritmo mais leve, ter conseguido ultrapassar muita gente. Dessa vez não foi muito diferente. Segui tentando manter um bom ritmo na subida e ultrapassando muita gente. O público, que esteve presente em quase todo o percurso, mostrou-se mais numeroso na subida. Justamente por ser a parte mais desafiadora do percurso, é onde muita gente decide ir para dar aquela força para seu amigo que está participando da prova. Ou talvez existam aqueles que vão simplesmente para dar um apoio inespecífico aos corredores em geral. Seja como for, o apoio do público nessa subida com certeza dá uma marcha a mais para ajudar na subida com gritos de incentivo. Eu também me contagiei e logo após molhar a cabeça na saída do posto de água soltei um grito que veio do fundo da alma: "BORA!!!" Pois é, ao contrário dos outros anos que encarei a Brigadeiro, nos quais lembro-me de estar muito cansado e só conseguir olhar para baixo, desta vez eu estava mais inteiro, mantendo a cabeça erguida o tempo todo e consequentemente conseguindo contemplar na plenitude esse espetáculo da corrida de rua: diversos corredores sendo desafiados pela subida, e um número ainda maior de pessoas nas laterais da avenida incentivando os atletas! Talvez seja justamente essa simbiose entre público e atletas que torne a São Silvestre uma das corridas de rua mais especiais e emocionantes que existam!
Uma semana antes da São Silvestre eu havia feito um treino de subida na Ilha Porchat em São Vicente, que é uma subida ainda mais desafiadora que a Brigadeiro. Talvez isso tenha me ajudado a desempenhar bem. Meu relógio completou o último quilômetro na Brigadeiro com 6min26seg. Nada mal para uma subida! Isso aconteceu na última quadra da Brigadeiro, quando a subida praticamente termina e já é possível ver a esquina com a Paulista. Desnecessário dizer que ela estava absolutamente abarrotada de gente acompanhando a prova. Dobro a esquina e vejo o pórtico da chegada ao fundo. Confesso que na minha memória o trecho na Paulista não era tão longo assim. Olho no relógio e o tempo marcado era de 1h26min. Faço o sprint final com o que me restava de forças, ao mesmo tempo que curtia o fato de estar correndo na absolutamente charmosa Avenida Paulista. Cruzo a linha de chegada com o tempo final de 1h27min22seg!
Missão cumprida! São Silvestre 2024 completada aos meus 40 anos de idade! E de quebra ainda consegui fazer abaixo de 1h30min, batendo portanto minha meta auto-imposta de tempo! A sensação não poderia ser das melhores. E veio o pensamento de que a São Silvestre é tão legal que merece ser corrida todos os anos. Porém, parando para pensar melhor, talvez tenha sido muito especial este ano justamente por causa do hiato de 12 anos sem participar. Não sei ainda se irei correr novamente na histórica 100a. edição de 2025. Vou decidir isso no devido tempo, conforme for o andamento do meu ano. Mas uma coisa é certa: ainda pretendo volta a correr mais vezes a São Silvestre. Quem sabe para comemorar os meus 50 anos de idade?
Segue novamente o print com as parciais marcadas pelo meu relógio, com direito à marcação superior à distância da prova. E para finalizar, vou deixar não só a foto da medalha desta edição da São Silvestre, mas também, logo abaixo, a foto com as 3 medalhas que possuo: a da 84a. edição (2008), a da 88a. edição (2012) e a da 99a. edição (2024).
Neste ano de 2024 voltei a ficar mais animado com a corrida. Tenho conseguido encontrar mais tempo para treinar, comecei a consumir conteúdo relacionado a corrida para tentar melhorar meu desempenho e de forma até que natural voltei a me motivar para escrever no blog. Entretanto, participar de provas exige uma certa preparação, planejamento com relação a agenda e é claro, motivação. Como já comentei em outras oportunidades, atrativos como local, organização, percurso, sempre pegam forte para mim.
Lembrei então que já no longínquo 2012 escrevi esse post sobre um treino bacana que havia realizado durante viagem ao Japão no final de 2011. A bem da verdade, desde então cheguei a viajar muitas outras vezes, e em uma ou outra oportunidade decidi por bem correr também. Especialmente quando estou viajando a trabalho, pois nestas ocasiões é uma excelente atividade para se fazer para preencher o tempo livre, antes ou após o expediente.
Tive algumas oportunidades de visitar a simpática cidade de Braunschweig no norte da Alemanha entre 2019 e 2022. Pra ser bem sincero eu nunca tinha ouvido falar nessa cidade antes de ir pra lá. Próxima a Hannover e não muito longe de Berlim, é uma cidade bastante antiga e que, como em muitos lugares da Alemanha, abriga contrastes entre construções centenárias e outras bastante modernas. Não chega a ser tão pequena assim, com cerca de 250 mil habitantes. Abriga também uma das sedes da DLR, o instututo de pesquisas aeroespaciais da Alemanha (seria o equivalente à NASA, ou ao CTA). Motivos pelo qual acho razoável comparar Braunschweig a São José dos Campos. Enfim, para a minha sorte o hotel que acabei me hospedando nessas ocasiões era muito próximo a um grande parque da cidade, o Bürgerpark, de tal modo que não tive grandes problemas em escolher um lugar bacana para ir correr.
Eu não tinha nenhuma prova em mente nas ocasiões que viajei para lá. Fiz meus treinos apenas para manter a forma, não perder o ritmo e apreciar de uma forma diferente a cidade em que me encontrava. Fiz a maior parte dos meus treinos no fim da tarde, após o expediente. Como fui pra lá em diferentes épocas do ano, tive a oportunidade de correr no outono, quando já se fazia noite, e na primavera, com os dias já bastante alongados e ainda com sol no fim da tarde.
Em apenas uma dessas ocasiões acabei ficando mais de uma semana em Braunschweig, o que me permitiu realizar um treino mais longo no sábado de manhã. Pretendia correr 12km, pois mais do que isso talvez ficasse muito cansado pelo resto do fim de semana. Acabei me empolgando um pouco e corri 14km. Tudo bem que no meio do caminho fui parando e tirando as fotos que ilustram esse post com o celular.
Basicamente todas as fotos são no Bürgerpark. Tanto a ruína em estilo greco-romano clássico (o que é bem curioso, pois o Império Romano não chegou até este lugar) quanto as bandeiras de vários países europeus que ficam na frente de um ginásio poli-esportivo, assim como a torre que faz parte de um hotel dentro do parque. Não cheguei a fazer um percurso específico, apenas fiquei zigue-zagueando por aí tirando as fotos dos lugares que já conhecia dos treinos anteriores bem como explorando os lugares por onde ainda não tinha passado.
Foi realmente um treino bem gostoso e diferente. Uma manhã de sábado correndo do jeito que eu gosto. Não importando aonde estou pelo mundo!
A propósito, vale comentar também que na semana seguinte meu voo de volta para o Brasil foi cancelado quando eu já estava na sala de embarque! A companhia aérea acabou me pagando um pernoite em um hotel próximo ao aeroporto de Hannover, e na falta de ter o que fazer acabei correndo também nas imediações do hotel. Não era um parque bonito que nem esse de Braunschweig. Também estava um pouco chateado com o transtorno da remarcação do voo. Mas mesmo nessas horas, nada melhor do que uma boa corrida para relaxar um pouco.
Como escolher qual prova participar? Com tantas opções disponíveis no calendário, essa nem sempre é uma escolha fácil de se fazer. Alguns dos aspectos que me motivam a escolher participar ou não de uma corrida são a localização e o percurso. Muitas vezes desisto de participar quando vejo que o percurso é exatamente o mesmo, ou às vezes muito parecido, com o de outras provas que já participei. E como em geral os percursos das corridas são praticamente idênticos da edição de um ano para a outra, acaba que dificilmente eu participo da mesma prova mais de uma vez. As únicas exceções que abri foram a prova da Tribuna, a São Silvestre e as provas de revezamento (para as quais havia um apelo social) do Pão-de-Açúcar e do Ayrton Senna.
Até agora. Eis que logo após a minha participação na prova de 10k da Oscar, talvez até por ter visto meus posts em redes sociais sobre essa corrida, meu acessor de investimentos da XP entrou em contato comigo oferecendo uma inscrição de graça para participar da Meia Maratona de São Paulo (prova esta que corri em 2010 - sim, minha primeira Meia Maratona) a ser realizada no mês seguinte. Ocorre que a XP estava patrocinando o evento e tinha algumas inscrições de cortesia para oferecer a alguns clientes. Dado meu relacionamento de longa data com esse meu acessor, ele acabou pensando em mim.
Eu não estava preparado para uma meia maratona, havia acabado de correr uma prova de 10k, e teria apenas um mês para treinar. Mas não é todo dia que a gente ganha uma oportunidade dessas. Lembrei da Meia de Santos de 2021, que foi adiada algumas vezes e quando confirmada eu também tive pouco tempo para treinar adequadamente. Decidi então que iria aceitar o desafio e treinar do jeito que desse nesse mês para conseguir concluir a prova.
Durante a preparação dei uma olhada no percurso. Não me lembro exatamente como era o percurso em 2010, mas não era tão diferente desse de agora. Largada e chegada continuavam sendo na Praça Charles Miller, em frente ao Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho, o famoso Pacaembú, com um bom trecho da prova se passando no Elevado Costa e Silva (popularmente conhecido como Minhocão) e passando por alguns pontos do centro de São Paulo. Na minha memória algum trecho se repetia dentro do percurso de 2010, o que não acontecia agora. De todo modo, como já se vão 14 anos que participei dessa prova, realmente o percurso não seria nada entediante. Muito pelo contrário, seria até bom para "matar as saudades" daquela região de São Paulo, visto que também não costumo passar por ali.
Na véspera da corrida fui com a família para São Paulo e ficamos hospedados na casa do meu cunhado. Tudo certo com retirada do kit em uma loja especializada em corridas (Running Land, próxima ao Parque do Ibirapuera). Mandei fotos do kit no grupo de corrida e um amigo perguntou se eu iria tentar um Sub-2h, pois até estava treinado para tal. Respondi que a meta era apenas terminar mesmo, mas que se as condições permitissem ia tentar sim. Fiz uma preparação pré-prova bastante adequada, com bastante hidratação, sem exageros na alimentação e indo dormir cedo (largada às 06:00 da manhã). Ou pelo menos era o que eu achava. Para o jantar acabei comprando um lanche na padaria mais próxima, e que acabou se mostrando uma escolha ruim. Não sei exatamente devido a qual ingrediente, talvez algum embutido (lombo, eu acho) não fiz a digestão muito bem. Acordei de madrugada, lá pela 1:00 precisando ir ao banheiro. Achei até que ia vomitar, mas não consegui. Pensei até em desistir da corrida, e voltei a dormir. Meu filho acordou às 04:15 para mamar (meu despertador estava para 04:30), de modo que nessa hora levantei. Nessa hora meu intestino funcionou e eu me sentia melhor. Como já estava acordado, decidi me trocar, tomar um café e me dirigir pra largada.
Cheguei no Pacaembú com cerca de 40 minutos de antecedência. O suficiente para deixar uma muda de roupas no guarda-volumes e conhecer o espaço e as tendas ali na Praça Charles Miller. Procurei meu local na largada e me impressionei com a quantidade de pessoas participando da prova. Parece que era cerca de 6 mil contando todas as 3 distâncias (5km, 16km e 21km). Apesar da noite mal-dormida, eu me sentia muito melhor e apto para a corrida, mas veio aquele friozinho na barriga e aquela pergunta para mim mesmo sobre se eu terminaria a prova. Sub-2h então, do jeito que meu amigo sugeriu? Só em sonho. Logo veio a contagem regressiva e lá fui eu.
Além da largada ter sido muito cedo, o dia estava nublado e portanto fazia frio. O que pra mim é excelente, pois meu desempenho é muito melhor sob essas condições climáticas. Comecei como sempre tentando buscar meu espaço no meio da muvuca e tendo que fazer algumas ultrapassagens. É muito comum ver grupos de amigos correndo juntos, e que por vezes acabam criando um obstáculo. Decidi não forçar muito e poupar energia (afinal, era uma meia, não uma prova de 10k), mas ainda assim comecei virando os primeiros quilômetros abaixo de 6min/km. Passei pelo km5 com o relógio marcando 28m06s, sendo 5m57s na última parcial. Eu estava me sentindo bem então achei que seria melhor buscar manter esse ritmo mesmo. Nessa altura da prova já havia uma boa dispersão e eu me sentia perfeitamente confortável. Os primeiros postos de hidratação se mostraram tranquilos e logo cheguei ao Minhocão. Sem o mesmo apelo da São Silvestre, na qual as pessoas lotam as sacadas para ver a corrida e você tem a sensação de estar correndo em um estádio, mas ainda assim uma paisagem bastante diferente pois você corre na altura dos prédios. Muito bacana ver também as empenas coloridas com muita arte urbana sendo exposta. Uma delas dizia "Você me faz melhor". Achei uma frase muito legal, eleva o astral de quem passa por ali e a lê. Foi o meu caso. Logo pensei também na minha esposa e no meu filho, pois eles me fazem uma pessoa melhor. E claro, também na corrida. Esse vício saudável sem sombra de dúvidas me faz melhor também.
Passei pelo km10 ainda no Minhocão, marcando 56m51s. Mas foi mais ou menos nesse ponto que percebi que a marcação da prova estava uns 200m atrasada com relação ao meu relógio. Ou seja, meu relógio acusava que eu completava o quilômetro cerca de 200m antes de eu efetivamente passar por uma das placas com a marcação oficial. A metade da prova, pelo meu relógio, passou com pouco menos de 1h de prova. Como não existia marcação oficial nesse ponto (seria o km10.5), então fiquei sem saber essa parcial pela marcação oficial. Seja como for, algo interessante aconteceu nesse trecho da corrida. Acabei ultrapassando uma moça correndo com o celular e gravando um vídeo contando ao vivo sobre como estava sendo sua corrida, e postando nas mídias sociais. Fiquei me perguntando se era alguma influencer ou coisa parecida. Possivelmente acabei aparecendo de coadjuvante em algum dos vídeos dela.
Veio então o trecho no Centro de São Paulo, com suas largas avenidas, prédios antigos, postes de luz antigos, além de cartões postais da cidade como o Edifício Copan e o Terraço Itália. Acho que me empolguei um pouco nesse trecho, talvez pela paisagem, de modo que virei o km14 com minha melhor parcial de 5m07s, marcando um total de 1h18m23s. Ou seja, eram dois terços da distância em menos de 1h20m. Daria para fazer abaixo de 2h mesmo até com certa folga. Mas pela marcação oficial ficaria um pouco no limite. Fato é que eu sentia um prazer imenso em estar participando daquela corrida, ali naquele lugar, e impondo aquele ritmo. Decidi que ia manter e tentar até apertar mais no final, se tivesse fôlego para tal.
Eu havia levado uma bananinha para repor energias e tinha me planejado para consumi-la no posto de água do km13. Entretanto, nesse ponto o posto foi de Gatorade. Tudo bem. Aproveitei o isotônico e deixei minhas calorias adicionais para o km16. Assim, teria a reta final da prova com um pouco mais de energia para tentar melhorar (ou pelo menos manter) o ritmo forte. Logo eu já pegava o caminho de volta rumo à Av. Pacaembu e começava a sentir o cansaço. A perna começava a ficar pesada e eu sentia que o ritmo já não era mais o mesmo. Passei pelo km18 com 1h40m15s pelo meu relógio. Pouco depois disso fiz a última curva e cheguei à Av. Pacaembú.
Esse final de corrida foi interessante. Último posto de água bastante farto para permitir o sprint final. E ao passar por um túnel subterrâneo me deparei com um verdadeiro exército de fotógrafos de corrida para pegar o pessoal durante a subida nos finalmentes da prova. O cansaço batia forte, as pernas já não respondiam mais do mesmo jeito. Eu tentava acelerar para o sprint final mas faltava energia. Completei 21km no meu relógio 1h57m21s. Mas ainda faltavam cerca 100m para completar a prova, afinal a distância da meia é de 21.097m. Ou melhor, faltavam ainda uns 300m dada a diferença das marcações. Fato é que pelo tempo oficial cruzei a linha de chegada com 1h59m09s! E com a distância de 21,35km no meu relógio. Simplesmente inacreditável para quem acordou com dúvidas sobre se ia participar ou não da prova.
Achei muito legal que na dispersão pós-prova, além da medalha e do habital kit com fruta e isotônico, recebemos também uma toalha da organização, decorada com o logo da prova. Foi perfeito para secar o excesso de suor, pegar a muda de roupa no guarda-volumes e curtir um pouco o ambiente na praça. Aliás, a inscrição gratuita do patrocinador da prova também dava direito de acesso a um stand, com mais comida, hidratação e espaço para relaxar e descansar. Bom pra retomar o fôlego, ver as estatísticas da prova no celular, além é claro de desfrutar de uma bela massagem que também estava incluída no pacote.
Assim como fiz no post da corrida anterior, deixo também as minhas parciais por quilômetro conforme marcados pelo meu relógio. Detalhe para a distância total, superior à distância normal da meia maratona. Olhando para essas parciais, depois de fazer uma meia sub-2h com pouca preparação, mantendo um ritmo bastante regular ao longo de todo o percurso, logo veio o pensamento: será que chegou o momento de voltar a pensar seriamente em correr outra maratona?
Para finalizar, como de costume, deixo aqui a foto da bela medalha desta corrida.
Desde que comecei a participar de corridas de rua lá atrás em 2008, consegui fazer pelo menos uma prova por ano. Até mesmo o ano de 2020, o mais crítico da pandemia, não passou em branco: participei de uma prova virtual como descrito AQUI. Mas em 2023 a vida mudou completamente com a chegada do bebê, e a rotina de treinos teve que ser adaptada. No final do ano eu até já estava me sentindo preparado para uma nova prova, mas o calendário acabou não ajudando muito. Entrei portanto em 2024 com a "promessa de Ano Novo" de voltar a participar de uma prova.
De uma forma bem oportuna, no final de 2023 eu acabei cruzando na rua com um colega de trabalho durante um treino. Corremos juntos por cerca de 1km e ele comentou que seria legal reunir o pessoal da nossa área para fazer alguns treinos juntos. Logo foi criado um grupo de whatsapp dos corredores lá da nossa seção. E foi bem legal ver o grupo se movimentando, juntando corredores mais experientes (como esse colega que é maratonista) até os mais novatos que pediam dicas de treinos, equipamentos, sugestões de provas, etc...
Logo veio o Reveillon e naturalmente começou a se falar no grupo sobre provas para 2024. Não demorou muito para divulgarem uma prova da Oscar, loja de calçados com unidades bem grandes em São José dos Campos, em parceria com a Fila, marca de material esportivo. Curiosamente, em 2016 corri uma prova deles, mas dessa vez era em parceria com a Adidas. Se quiser saber como foi essa experiência, basta clicar AQUI.
A prova estava disponível nas modalidades 5k, 10k e Meia Maratona. Por mais que eu goste das longas distâncias, achei que seria um exagero retornar a participar de uma prova depois de quase 2 anos logo em uma Meia Maratona. Ainda mais com a rotina de treinos em fase de adaptação. Além disso, olhando o percurso da prova, veio a constatação que não seria uma moleza: a prova seria no Anel Viário de São José dos Campos, uma via expressa de trânsito rápido da cidade, mas que tem várias subidas e descidas. Por todos esses motivos somados, a prova de 10k já parecia estar de bom tamanho para uma retomada às competições. Logo acabei me inscrevendo nessa modalidade, junto com mais 3 colegas de trabalho (2 para essa mesma distância e 1 para os 5k).
A retirada do kit da corrida ocorreu no Vale Sul Shopping, próximo à loja da Oscar. Além da camiseta azul muito bonita, o kit também continha uma caneca escrito "Quem corre entende!" No site havia até um texto fazendo referência a acordar cedo pra ir treinar e à sensação de bem-estar causada pela corrida.
Comecei então a me preparar. Minha última prova havia sido de 10k também, a corrida da Farma Conde Arena em 2022. Desde então fiz treinos curtos de 5k a 7k, apenas para manter a forma, e raramente algum que chegasse em 10k. Realizar a inscrição e comentar sobre a corrida no grupo do Whatsapp foi um estímulo para começar a pegar mais firme nos treinos. Inclusive treinando junto com o pessoal do grupo em algumas manhãs de sábado. Em um treino desses, inclusive, acabei me empolgando na conversa e fiz um treino de 11k, passando portanto da distância que eu havia me proposto. Pelo menos era um sinal de que eu estava plenamente em forma para encarar outra prova de 10k.
Com relação à meta de tempo, pensei que uma boa meta desafiadora seria tentar bater a marca da última prova de 10k, que havia sido de 51min38seg. A bem da verdade, meu relógio marcou uma distância menor, discrepância essa que só apareceu no final da prova. Fazendo a projeção para a distância correta, eu teria completado em pouco menos de 53min. De todo modo, o simples fato de voltar a participar de uma prova, sentir o clima criado no evento e aquela adrenalina para tentar fazer seu melhor, já era combustível mais que o suficiente.
Veio então o grande dia. Largada marcada para 07:00 da manhã, e eu acordei por volta das 05:15. Desde que meu filho nasceu andei me habituando a acordar mais cedo e sair pra treinar antes do café da manhã, comendo apenas uma fruta antes de sair. O que é bem válido para treinos de curtas distâncias. Mas para 10k, e ainda por cima em uma prova que eu tentaria marcar algum tempo, comer algum carboidrato antes de sair era necessário. E aqui cometi acho que o meu grande erro do dia: escolhi comer meu pão com um queijo que era um tanto quanto curado. Queijo fresco não costuma ser problema, mas os curados são mais gordurosos e podem pesar na hora do exercício. De todo modo, tive tempo o suficiente ainda para ir até o banheiro e me dirigir para o local da largada, que era próximo à Prefeitura Municipal de São José dos Campos.
Encontrei meus bravos companheiros e logo nos dirigimos para a região da largada. Primeiro veio a largada da Meia Maratona, e 15 minutos depois foi a nossa vez. Fui atrás do rapaz mais experiente do grupo, encontrando um corredor pela lateral da pista e conseguindo assim encontrar meu espaço de forma mais rápida. O fato de a corrida estar sendo realizada em uma via espressa bastante larga também ajudou na rápida dispersão pós-largada. E tentei já imprimir meu ritmo forte desde os primeiros quilômetros. No começo o percurso era mais em descida, de tal modo que eu estava fazendo uma média de 5min15seg por quilômetro.
Deixo aqui também a minha única crítica com relação à organização da prova. Uma vez que a corrida era um simples "vai-e-volta" na mesma via, em algum momento havia uma curva 180º para o retorno. Essas curvas nos forçam a reduzir a velocidade e de certa forma comprometem o tempo total da prova. Mas ok, em muitos casos não tem como ser diferente. Entretanto, o que achei ruim nesse caso foi que o retorno de meio de pista deu-se literalmente em cima de um canteiro central, com direito a ter que subir (ou pular) a sarjeta. Achei muito perigoso e espero honestamente que ninguém tenha se machucado por ali. Isso foi por volta do km4, e logo após o retorno havia um tapete de medição intermediário.
Veio então a subida da prova, no km5. Confesso que minha impressão ao passar de carro por ali no meu dia-a-dia é que a subida seria assustadora em uma corrida de rua, um verdadeiro desafio. Mas depois, ao verificar pelo GPS, foram cerca de 30m de ganho de elevação ao todo, distribuídos por quase 1km. Já enfrentei subidas piores. Tanto que fiz essa parcial em 5min36seg, não muito acima da média que já vinha desempenhando.
Com isso cheguei à metade da prova, pegando água no posto de hidratação correspondente à foto acima. Eu não costumo adquirir muitas fotos das corridas que participo, mas essa daí achei que ficou muito boa. Parabéns para o fotógrafo que registrou o momento.
A parcial da metade da prova foi de 26min38seg. Uma projeção deste mesmo tempo para os 10km seria portanto de terminar um pouco acima dos 53min. Percebi que precisava apertar o ritmo se quisesse fazer abaixo deste tempo. Consegui passar pelos km6 e 7 com 5min13seg, um pouco beneficiado pelo relevo em descida nesse trecho. A meta era desafiadora, mas parecia factível.
O problema é que logo ficou evidente que o queijo que eu comi no café da manhã estava pesando. Eu sentia a barriga pesando, e começava até a soltar uns arrotos com gosto do queijo. E logo comecei a cansar também, virando os próximos dois quilômetros com um ritmo mais lento e completando o km9 com exatos 48min de prova. Seria necessário fazer o último quilômetro em menos de 5 minutos, e meu ritmo estava na casa de 5min30seg.
Eu de fato já havia largado mão da meta de tempo. Mas uma coisa curiosa aconteceu nesse último quilômetro. Ocorre que o pessoal da meia maratona largou 15 minutos antes. E dados os cerca de 4-5 minutos entre dar a sirene da largada e eu efetivamente passar pela linha de largada, eu tinha uma diferença de cerca de 20 minutos de diferença de tempo de largada para o pessoal da meia. Se eu estava finalizando a minha prova com pouco mais de 50 minutos e o pessoal da elite da meia ia concluir a prova perto de 1h10min, logo aconteceu o que se esparava: o líder da meia maratona estava me alcançando!
Comecei a escutar o pessoal da organização da prova anunciar que o líder da meia estava chegando, e já podia ouvir as sirenes das motos dos batedores que escoltavam o líder. Ao fazer o retorno no final do Anel Viário, pude ver o líder chegando no outro sentido. Faltavam pouco menos de 500m para o fim e eu já conseguia visualizar o pórtico da chegada ao longe. Por mais sem sentido que seja, falei pra mim mesmo que não deixaria o campeão da meia chegar antes de mim! Iniciei então um baita sprint final! A propósito, a foto ao lado corresponde a esse sprint final. Achei que ficou legal, mostra meus dois pés fora do chão. Créditos da foto para uma colega do trabalho, a Michelle, (do grupo do whatsapp) que participou na categoria 5k.
Voltando à epopeia da chegada: a faixa da esquerda ficou reservada para a elite da meia (com cones de trânsito garantindo a separação), e as demais ficavam para o pessoal de 5k e 10k. Cruzei a linha de chegada com 53min10seg de tempo final. Foi apenas o tempo suficiente de eu cruzar a linha de chegada, virar o pescoço e assistir de camarote ao campeão da meia rasgar a faixa da chegada. Depois, olhando o tempo final dele e comparando com meu tempo bruto, concluí que cheguei 3 segundos antes dele!
Cheguei tão exausto com esse esforço final, que resolvi até comprar a foto que algum fotógrafo tirou de mim logo após a chegada. Essa minha cara de exaustão, de quem chegou no limite, retrata bem o que eu sentia na chegada. Sentei no meio-fio e fiquei recuperando o fôlego durante alguns minutos. Não foi bem o tempo que eu queria, imagino eu que principalmente devido ao erro cometido com a alimentação pré-prova, mas sem sombra de dúvidas foi o meu limite. Foi o melhor que pude dar de mim mesmo nesse dia. E é justamente esse o meu objetivo com a corrida. Ser a minha melhor versão.
Comecei o post falando do grupo de corridas de whatsapp formado pelo pessoal do trabalho, e que escolhi participar dessa prova porque foi um combinado dentro do nosso grupo. Para quem já estava procurando uma prova pra participar, talvez tenha sido apenas o empurrãozinho que estava faltando mesmo. Logo, eu não poderia finalizar o post sem antes incluir aqui uma foto do registro que tiramos nesse dia após a chegada, todos com suas respectivas medalhas. Obrigado Olaf, Michelle e Eliaquim pela parceria nesse dia! A companhia de vocês antes da largada e após a chegada tornou a participação nessa corrida em algo singular.
Como falei muito dos tempos das minhas parciais na corrida, acho interessante deixar também a figura com o valor do meu ritmo em cada quilômetro da prova, registrado pelo meu relógio.
Para finalizar o post, seguindo a tradição, deixo a foto da medalha dessa corrida. Com destaque para a ponte estaiada que virou cartão-postal da cidade de São José dos Campos, mas que curiosamente não fez parte do percurso.
Não lembro exatamente quando foi, mas ouvi falar pela primeira vez do corredor etíope Abebe Bikila na época de alguma Olimpíada, provavelmente Atlanta-1996 ou Sydney-2000. E nos meus primeiros anos como corredor um amigo me contou da existência desse livro que conta a história dele. Até achei que seria uma leitura interessante, mas como o livro nem havia sido lançado no Brasil na época (aliás, nunca foi até hoje), acabei deixando de lado.
Curiosamente em 2019 tirei férias no Sudeste Asiático e voei com a Ethiopian Airways, com escala em Addis Abeba, capital do país. No aeroporto, encontrei o livro à venda por 40 dólares! Resolvi esperar um pouco e ver quanto custaria comprando pela internet. Como esperado, apenas 7 dólares. Então, em uma viagem a trabalho para o exterior no final do mesmo ano, acabei comprando o livro. Mas entre tantas outras leituras, essa daí acabou ficando de lado por um tempo. Não sei dizer exatamente o motivo, mas no final do ano passado (2023) resolvi começar a leitura.
Trata-se na verdade de uma biografia romanceada. Um misto entre descrição de fatos e desenvolvimento dos personagens, com direito a diálogos e pensamentos. Talvez o autor tenha entendido que dessa forma a leitura ficaria mais agradável para o público. E de fato, na minha opinião a leitura ficou bastante prazerosa dessa forma.
Por se tratar de uma biografia, relatando portanto fatos reais, ocorridos há cerca de 60 anos atrás, então não vai ser spoiler comentar um pouco da história em si. Abebe nasceu em um vilarejo no interior da Etiópia, e quando adolescente saiu de casa para cumprir seu sonho: ser um soldado da guarda imperial e servir ao imperador Haile Selassie, assim como seu pai o fizera.
Cabe aqui um parênteses: o livro conta como a figura do imperador era importante na Etiópia. Diz-se que ele era descendente direto do Rei Salomão com a Rainha de Sabbá (que era etíope). Mais ainda, a Arca da Aliança (a mesma do filme do Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida), na qual as tábuas originais dos 10 mandamentos estão guardadas, supostamente está no subsolo da catedral de Addis Abeba.
O Imperador Selassie decide então investir no esporte e aceitar o convite do Comitê Olímpico Internacional para participar dos Jogos Olímpicos de Melbourne em 1956. Então ele contrata Onni Niskanen, um ex-atleta sueco, para ser treinador dos soldados de sua guarda imperial, e ver se algum deles teria aptidão para o esporte. O foco, entretanto, eram os corredores de curtas e médias distâncias, e Abebe nunca se destacou nessas provas, por mais que se esforçasse. A delegação que viajou a Melbourne não trouxe nenhuma medalha, mas um quarto lugar obtido na prova dos 1500m mostrou que eles poderiam sim competir em alto nível.
Um belo dia Niskanen decide colocar seus corredores para fazer uma maratona, e eis que brilha finalmente Abebe Bikila. Dono de ótimos tempos e vencedor de uma prova local de maratona, ele parecia sim um jovem muito promissor. Mas os próximos Jogos Olímpicos seriam em Roma em 1960, e muita propaganda estava sendo feita em cima das provas de Ciclismo, esporte muito apreciado na Itália. O Imperador decide então mandar mais alguns ciclistas e pouco recurso restou para o Atletismo. Porém, na véspera da viagem, um dos atletas de curta distância se machuca jogando futebol, e então Abebe Bikila é chamado.
Muito interessante a forma como o livro relata a primeira viagem de avião, a primeira vez fora da Etiópia e o primeiro contato com estrangeiros, em especial com os americanos. Sim, o livro relata bastante as diferenças culturais entre os povos. Por exemplo, um único atleta americano comprou 6 pares de tênis, enquanto os etíopes, quando muito, conseguiam comprar 1 só. Aliás, Abebe não se adaptou com nenhum tênis, e como já estava mais do que acostumado a correr descalço, decidiu por assim o fazer (tendo todo o apoio de seu treinador Niskanen).
Ao longo das duas semanas da Olimpíada, Abebe treina em todo o percurso da maratona de modo a conhecer cada detalhe do relevo. Em um dado ponto do percurso, eles passariam pelo Obelisco de Axum, trazido para Roma cerca de 2000 anos antes quando da conquista de uma região da Etiópia. Aquele seria o ponto que Abebe deveria iniciar o sprint final para se distanciar dos oponentes. De acordo com Niskanen, seu principal adversário seria um marroquino chamado Rhadi, embora a imprensa estivesse apostando as fichas em atletas europeus e soviéticos.
Na largada da maratona, Abebe já fica feliz só de estar ali com outros atletas do mundo inteiro, e poder conhecer pessoas das mais diversas nacionalidades. Ao dar a largada, Abebe faz como o recomenado por Niskanen, e começa a seguir o pelotão da frente, com o ritmo sendo ditado por dois atletas soviéticos. Porém, lá pelo km25, Rhadi aperta o ritmo para liderar a prova e é prontamente seguido por Abebe. Ocorre que Rhadi havia trocado seu número 26 pelo 185, que ele usara na prova dos 10.000m na qual obteve o ouro. Por esse motivo, Abebe achou que se tratava de outro atleta. algum egípcio talvez (Abebe conhecia alguns egípcios, mas nenhum marroquino). Pouco depois, Abebe achou que Rhadi deveria estar ainda mais à frente daquele suposto egípcio e apertou ainda mais o ritmo. Ao passar pelo Obelisco, iniciou o sprint final e arrancou para o então inédito ouro olímpico da Etiópia!
A piada que ficou é que a Itália precisou de um exército para invadir a Etiópia, mas bastou um soldado da guarda imperial para conquistar Roma! O fato de correr descalço também chamou muita a atenção. E mais do que isso: Abebe simplesmente pulverizou o recorde mundial da maratona, que era de então 2h23min, para 2h15min! Curiosamente os dois soviéticos que iniciaram a prova puxando o pelotão, estavam muito confiantes pois sabiam que poderiam correr abaixo do recorde mundial. Eles de fato conseguiram completar em 2h20min, mas chegaram em quarto e quinto lugares e terminaram sem medalha! Quanto a Rhadi, logo após o pódio ele cumprimentou Abebe e disse estar feliz por ter perdido para um africano, e não para um americano, europeu ou soviético.
Abebe retornou à Etiópia e foi condecorado pelo imperador, tendo se tornado uma celebridade e herói nacional. Ainda assim, continuou sendo soldado da guarda imperial, com o mesmo salário e mantendo o mesmo padrão de vida. Mas, ao contrário dos atletas americanos, que diziam esperar novos contratos e novos patrocinadores após o retorno, Abebe estava muito grato ao Imperador pela oportunidade que lhe fora concedida.
Poucos meses após a Olimpíada, alguns militares superiores de Abebe tentam dar um fracassado golpe de Estado contra o Imperador, e por isso são condenados à morte. Abebe, embora só estivesse cumprindo ordens superiores sem nem desconfiar qual era o objetivo da operação, também estava entre os condenados. Muitos foram os que suplicaram pela sua vida, dentre eles obviamente Niskanen. Não se sabe ao certo por qual motivo o Imperador poupou a vida de Abebe. Possivelmente porque ele se recusou a atirar em um membro na nobreza durante a operação. Mas fato é que, se antes Abebe já era grato ao Imperador pelas oportunidades que teve, desse dia em diante passou a ser grato por sua vida!
Abebe sofreu uma derrota importante na sua carreira quando foi convidado a participar da Maratona de Boston em 1963, a mais antiga do mundo. Talvez pelo clima muito frio e úmido, mas ele não conseguiu desenvolver um bom ritmo e ficou muito longe dos líderes. O que na verdade lhe deu mais ânimo para treinar para os Jogos Olímpicos de Tóquio em 1964.
No Japão, Abebe já não tinha mais o elemento surpresa a seu favor. Pelo contrário, ele era o homem a ser batido agora. Mas na largada alguns atletas saíram em um ritmo muito forte logo no começo, e na marca dos 10km Abebe sequer estava próximo ao pelotão. Mas logo os líderes começaram a reduzir o ritmo, de modo que na marca dos 15km Abebe assumiu a liderança. E ao passar pelo km21, metade da corrida, já era líder absoluto. Abebe venceu a prova com 4 minutos de vantagem sobre o segundo colocado, além de estabelecer novo recorde olímpico com 2h12min. Mais do que isso, tornou-se o primeiro atleta a ganhar duas maratonas olímpicas! Esse só foi igualado mais tarde pelo alemão Waldemar Cierpinski (Montreal-1976 e Moscou-1980) e pelo etíope Eliud Kipchoge (Rio-2016 e Tóquio-2020).
Abebe ainda participou dos Jogos Olímpicos de 1968 na Cidade do México e liderou a maratona até o km15, quando foi forçado a abandonar a corrida com fortes dores na perna. Mas torceu muito e viu seu amigo e compatriota Mamo Wolde levar o ouro olímpico para a Etiópia mais uma vez! Com isso, Abebe decidiu parar de competir e virar um treinador assim como Niskanen, e começar a treinar novos corredores. Até mesmo porque, dali a 4 anos ele provavelmente já não conseguiria mais competir no mesmo nível devido à idade.
De forma bastante trágica, Abebe sofreu um acidente de carro enquanto dirigia pela capital Addis Abeba em 1969. Tratava-se do carro que o Imperador lhe havia presenteado pela medalha de ouro em Tóquio. Nesse acidente, ele fica paralítico e perde completamente o movimento das pernas, não podendo mais voltar a correr. Deve ser realmente muito triste para um corredor profissional não conseguir mais movimentar as pernas. E, embora a os Jogos Paraolímpicos já existissem (primeira edição foi em 1960), ainda era algo muito incipiente e provavelmente não era conhecido na Etiópia. Mesmo assim, Abebe ainda participa de algumas competições menores de arco e flecha para cadeirantes. Apesar de não conseguir se destacar, ele fica muito feliz de participar e diz finalmente compreender o lema olímpico, de que o importante não é vencer, mas competir. Sem dúvida uma leitura bastante motivadora para corredores amadores como eu, que gostam simplesmente de participar das corridas de rua, com a única ambição de ser sempre melhor do que apenas você mesmo.
Se você leu esse post até aqui e achou a história do Abebe Bikila interessante, deixo aqui dois vídeos do canal oficial do Comitê Olímpico Internacional no YouTube contando mais detalhes sobre as duas maratonas vencidas pelo etíope.
O ano de 2022 começou com uma nova onde de casos de COVID, mostrando que a pandemia ainda não havia terminado. Por esse motivo acabei não traçando nenhum objetivo de corrida no começo do ano. Preferi adotar a cautela e ver como seria o desenrolar dessa história.
Porém, logo no começo do ano passei por problemas pessoais que até me tiraram do foco das corridas. Não cheguei a parar com meus treinos, mas também não procurei novos desafios por um bom tempo.
Foi realmente quase no meio do ano, após ver vários amigos participando de uma Meia Maratona em São José dos Campos, que me animei e resolvi correr alguma prova. Dado o calendário local, uma boa candidata seria o Desafio Farma Conde Arena.
Situada na Via Oeste, uma via expressa de trânsito rápido em São José dos Campos, esse ginásio poli-esportivo foi uma daquelas obras de infra-estrutura que volta e meia era paralisada e depois retomada. Não acompanhei muito de perto o desenrolar dessa história, mas fato é que depois de muito tempo finalmente a arena foi concluída e havia sido recentemente inaugurada. A corrida de rua serviria, portanto, até mesmo para as pessoas poderem conhecer a arena e as imediações.
Desnecessário dizer que a entrega do chip foi na própria arena. A única coisa que lamento é que não foi dentro da quadra do poli-esportivo (como acontece por exemplo com a entrega dos kits da São Silvestre, que até a última vez que participei era dentro do Ginásio do Ibirapuera), mas sim no átrio de entrada do público. Dessa forma, não foi possível entrar na arena propriamente dita, mas apenas dar uma olhada de relance.
No dia da corrida, o amplo estacionamento da nova arena estava disponível para os participantes. E a própria concentração para a prova estava sendo realizada ali.
Ao contrário da Meia de Santos, realizada em Novembro de 2021, com todos os cuidados necessários com a pandemia, a organização dessa prova não parecia minimamente preocupada com o vírus. Não foi necessário apresentar teste PCR ou comprovante de vacina para a retirada do kit, e muito menos para a entrada na região da largada. Eu me senti um extraterrestre por ter ido buscar meu kit de máscara, e por ficar com ela durante a concentração sempre muvucada da largada. Isso porque conheço muita gente que ficou doente no mês anterior. Um sinal de que, se a pandemia ainda não havia passado de fato, pelo menos a preocupação da maior parte das pessoas, essa sim já havia sido deixada para trás.
O percurso da corrida não foi muito diferente da prova da Track and Field do Shopping Colinas que participei em 2019. A diferença residia basicamente no ponto de largada e chegada (Arena ao invés do Shopping). Mas a bela manhã de sol de domingo no inverno e o ar até mesmo um pouco bucólico da Via Oeste foram uma bela inspiração para a participação nessa prova. Curiosamente encontrei um colega de trabalho na largada que eu nem sabia que corria. E pelo visto nem ele! Acabou me contando que era sua primeira corrida, que havia começado fazia pouco tempo por recomendação médica. Desejamos boa sorte um ao outro e logo foi dada a largada e estávamos correndo.
Eu não tinha nenhuma meta de tempo para a prova. Meu recorde pessoal dos 10k, obtido na prova da Tribuna em 2015 com 50min15seg, seria praticamente inalcançável dado meu nível de treino. Terminar a prova abaixo de 1h era praticamente obrigação para mim, pois sempre consegui fazer pelo menos esse tempo. Ficar abaixo dos 55min já parecia uma meta factível dada a realidade do momento.
Comecei a corrida um tanto quanto tranquilo, tentando apenas manter um bom ritmo e apreciar a paisagem da Via Oeste. Completei o primeiro quilômetro com 4min56seg, e logo constatei que tinha que reduzir um pouco o ritmo. Os dois quilômetros seguintes foram feitos com média de 5min08seg. Ainda muito forte, e eu percebia que não seria possíel manter o mesmo ritmo. O quarto quilômetro veio com 5min20seg, e a partir daí a coisa já parecia mais realista mesmo. Cruzei a marca dos 5km, metade do percurso, com 25min45seg. Na segunda metade da prova ainda mantive uma média de 5min20seg por quilômetro, tentando dar uma leve puxada no último quilômetro com o fôlego que ainda restava para cruzar a linha de chegada com 51min23seg! Nada mal!
Um outro detalhe é que foi apenas minha segunda corrida oficial com um relógio que marca as distâncias (antes disso usava o celular). E pela segunda vez a distância final marcada pelo relógio ficou abaixo da marcação oficial da corrida, foram apenas 9,78km. Uma pena, pois o app não reconhece que foi uma prova de 10km, logo não registra essa corrida como uma das melhores marcas de 10km. Acontece.
Como não poderia deixar de ser, finalizo o post com a foto de mais uma medalhinha de participação para a coleção. E que venham ainda muitas outras!
PS: Sim, a corrida foi em Agosto de 2022 e eu publiquei o post em Janeiro de 2024. Os desafios que a chegada da paternidade trouxe também impactaram a disponibilidade para treinar e participar de corridas. Retomar a escrita do post (que já estava bem avançado por sinal) durante o recesso de fim de ano foi uma forma de motivação para voltar a correr. Que venham portanto mais corridas!
No final de 2019 comecei a planejar as provas para participar em 2020. Escolhi a Meia de Santos, programada para Abril de 2020, como o primeiro desafio do ano. Eis que veio a pandemia, as restrições de circulação e a impossibilidade de realizar uma corrida de rua. A prova foi então adiada para Novembro. Dada a continuidade da pandemia, a prova foi sucessivamente adiada para Abril de 2021 e finalmente para Novembro de 2021. Então, com a população adulta já vacinada (pelo menos quem não é retardado ao ponto de não querer se vacinar) e os índices da pandemia mais controlados, a organização da prova pôde finalmente realizar o evento.
Claro que vários protocolos de segurança foram estabelecidos. Por exemplo, a necessidade de apresentar comprovante de vacinação (ou exame PCR nas 24 horas anteriores) para retirada do kit da prova. Nesse ato foi entregue uma pulseira, e só era permitido entrar na arena de largada com a apresentação da pulseira. Além disso, era obrigatório o uso de máscara na região da arena. Após cruzar o pórtico de largada, era permitido retirar a máscara, porém era necessário recolocá-la ao cruzar o pórtico na chegada. A largada também se deu em ondas, organizadas de acordo com a estimativa de tempo que cada atleta forneceu no ato da inscrição. Tudo de modo a evitar aglomeração e facilitar a dispersão na hora da largada.
A região da arena ficou concentrada na praça onde se situa o Aquário Municipal, próximo ao Canal 6, na Ponta da Praia. Um local que me agrada, pois é bastante amplo e favorece boa dispersão de pessoas, além é claro de ser uma região bastante bonita. Enquanto aguardava a largada, o que mais pude escutar das pessoas em volta era o quão ansiosamente estavam esperando por aquela corrida. Praticamente 2 anos sem participar de nenhuma prova. E uma certa apreensão no ar também de por quanto tempo essa sensação de controle da pandemia devia perdurar.
A organização da prova me deu a pulseira do segundo pelotão para largada. De modo a evitar a aglomeração da largada, decidi entrar na arena apenas após a largada do primeiro pelotão, embora ela já estivesse aberta para todos. O intervalo de largada entre os pelotões era de 5 minutos. Ao ouvir a sirene para a largada do segundo pelotão, decidi entrar e fui avançando. Os fiscais da prova deixavam passar pelo cordão que dava acesso ao tapete de largada apenas os que tinham a pulseira na cor correspondente ao pelotão. O fato de ter deixado todo mundo acessar a arena não me pareceu muito legal, pois o pessoal que ia largar no terceiro pelotão acabou causando aglomeração perto do pórtico de largada. Logo após passar por esse pórtico eu já estava correndo pra valer, sem acotovelamento, sem briga por espaço. Nem tudo foi perfeito, mas o balanço geral é que o esquema de largada por ondas funcionou muito bem.
Como já mencionei, após a largada era permitido tirar a máscara. Realmente correr de máscara não é algo muito recomendável devido à limitação do fluxo de ar, mas foi uma medida necessária durante os períodos mais agudos da pandemia. Dada a demanda criada, foram até desenvolvidas máscaras mais apropriadas para a prática de esportes, como a que usei no dia da prova. De certa forma até me acostumei a correr de máscara, mas apenas em curtas distâncias. Para provas longas, como uma meia maratona, fica realmente mais difícil. Minha estratégia foi de tirar a máscara quando me senti confortável com a distância para as outras pessoas (o que aconteceu pouco após a largada), ou ao passar nos postos de água (pois teria contato mais próximo com as pessoas da organização), ou sempre que percebesse estar próximo de grupos de pessoas correndo juntas, e naturalmente após a chegada. Minha opinião é que essa abordagem funcionou muito bem também.
Justamente devido ao fato de correr com máscara, meus treinos durante a pandemia estavam limitados a curtas distâncias, como 5-8km. Apenas para realmente manter uma atividade física, visto que nenhuma prova estava no horizonte. Porém, quando recebi o e-mail da organização confirmando a realização da prova, decidi alterar os treinos para me preparar. Não que eu tivesse muito tempo disponível, eram apenas 2 meses, mas perfeitamente possível se o objetivo fosse apenas concluir a prova, sem meta de tempo.
Completei o primeiro quilômetro da prova em 5min30seg. Um ritmo mais forte do que eu estava acostumado nos meus treinos. E olha que meu treino mais longo foi de apenas 18km, não cheguei a fazer a distância da prova durante minha preparação. Tudo bem que o tempo estava bastante ameno (algo surpreendente para Santos em Novembro, mesmo largando às 7h00 da manhã), mas ainda assim achei melhor tentar reduzir o ritmo. Cruzei a marca dos 2km com 11min02seg, ou seja, o mesmo pace. Ok, precisava mesmo reduzir o ritmo para não ter problemas na continuidade da prova.
Virei no Canal 6, e logo veio o primeiro posto de água. A estratégia era a mesma de sempre: tomar apenas alguns goles para matar a sede e o restante do conteúdo do copo jogar na cabeça para refrescar. Mesmo com o tempo ameno, senti diferença. O ritmo logo reduziu um pouco, de modo que ao cruzar a marca dos 5km, já na região do porto, o relógio marcava 28min09seg. O cenário do porto não é dos mais bonitos para se correr, mas a via estava bem cuidada, limpa, os postos de água bem abastecidos, enfim, a organização estava realmente de parabéns.
Voltei ao Canal 6 e cruzei a marca dos 10km com 57min40seg. E o mais importante: estava me sentido bem e confortável com esse ritmo. Mas foi pouco depois desse ponto, na hora que cheguei ao final do Canal 6 e fiz a curva para entrar na avenida da praia, ao visualizar a orla de Santos ensolarada numa bela manhã de domingo, que veio aquela sensação maravilhosa de constatar que eu estava participando de uma corrida!
Que prazer realmente indescritível! Correr na avenida da praia de Santos, com sol, céu azul, até mesmo com um pouco de calor devido ao avançar do horário, participar de uma prova, tudo isso trazia uma deliciosa sensação de prazer e de vontade de curtir o momento que fica realmente difícil colocar em palavras.
Mas logo o calor realmente apertou, o cansaço começou a bater e o ritmo de prova começou a diminuir. Cruzei a marca dos 15km com 1h27min34seg. Fiz a curva em 180º próxima ao emissário submarino, já próximo à divisa com São Vicente, e a partir daí era só seguir reto até retornar ao Aquário para finalizar a corrida. Embora um pouco cansado, estava me sentindo muito bem, e com a plena convicção que iria até o fim da prova.
A essa altura do campeonato a dispersão já era tão grande que eu realmente parecia estar correndo sozinho. Era bem ocasional ultrapassar ou ser ultrapassado por alguém nessa reta final. E ao constatar que a corrida estava no fim, conseguir tirar aquelas últimas energias para tentar melhorar um pouco o ritmo e cruzei a linha de chegada com o tempo final de 2h00min37seg.
Por pouco não foi uma meia sub-2h! Um resultado excelente para quem mal estava treinado para essa distância. Não foi meu melhor tempo em meia (1h52min) mas também longe de ter sido o pior (2h15min). Tanto faz, o simples fato de voltar a participar de uma meia já me deixou muito feliz.
Para finalizar, como sempre, deixo aqui a foto da bela medalha dessa corrida. Tomara que em 2022 seja possível participar de mais corridas assim.