terça-feira, 3 de novembro de 2026

42km aos 42 anos: Maratona de São José dos Campos

Dos posts anteriores (em especial o último), ficou claro que a minha meta pessoal do ano era o de finalmente desafiar novamente a Maratona. Experiências que já relatei aqui nos longínquos anos de 2013 no Rio de Janeiro e 2014 em São Paulo. Foram duas corridas sob calor intenso, nas quais tive muitas dificuldades apesar de ter me preparado com treinos na casa dos 36km para ambas. Nos dois casos, fiz acima de 5 horas de prova e tendo caminhado bastante, principalmente no final. Se por um lado tive a alegria de completar, por outro ainda tinha um gostinho amargo de ter caminhado bastante e feito um tempo muito alto. Então, depois de focar em outros projetos pessoais (como o Doutorado), depois da pandemia e depois dos primeiros anos da paternidade, parecia ter chegado a hora de encarar novamente o desafio.

Acabei estudando outros treinos diferentes do que havia feito no passado. Li material sobre técnica. E comecei a fazer o fortalecimento muscular que sempre negligenciei e que muita gente me recomendava fazer. Escolhi a Maratona de São José dos Campos, pela comodidade de ser "em casa" e também pela data de Setembro, que casaria bem com uma periodização de treino que me permitisse chegar lá preparado. 

Então comecei a me preparar, alternando as corridas com os treinos de fortalecimento durante a semana. E aos finais de semana sempre com um treino longo. Fui aumentando a distância gradativamente, mas também alternando com treinos mais curtos para garantir uma boa recuperação. Meu treino mais longo previsto era de 32km. Aproveitei para fazer um reconhecimento do percurso. Como eu já havia corrido a meia dessa prova no ano anterior, conhecendo portanto parte do percurso, aproveitei o ensejo para visitar o trecho do percurso que eu ainda não conhecia (ou pelo menos não correndo). Tratava-se de um trecho de cerca de 10km. No final das contas, esse treino foi de 33,33km pois acabei dando uma esticada. Neste treino, consumi 3 sachês de carboidrato em gel, nos km 9, 17 e 25. Para a corrida, a ideia seria utilizar uma dosagem maior. Olhando o percurso da prova, decidi consumir um gel a cada 7km. Sendo que nos km12 e km28 haveria um posto de isotônico. Além é claro dos postos de água a cada mais ou menos 2-3km.

Na retirada do kit, recebi o número do peito 110. Perguntei quantos inscritos haviam na prova e me informaram se tratar de 620. Um décimo portanto da Maratona de São Paulo deste ano! O que me leva a crer que a prova só é economicamente viável para os organizadores pois existem as provas nas outras distâncias de 5k, 10k e 21k. Pois o custo do evento, devido à quantidade de vias interditadas, postos de hidratação, profissionais envolvidos, é basicamente por causa da Maratona. Os outros eventos entram mais como receita do que como custo nessa conta.

Seja como for, caprichei na preparação na véspera. Alimentação leve na noite anterior, roupa da corrida e carboidrato em gel separados com antecedência. A largada estava prevista para 05:00 da manhã. Acordei às 03:30, tomei meu café e fui ao banheiro, mas o intestino mal funcionou. Fiz meu alongamento e me desloquei até a largada. Faltando cerca de 15 minutos para a largada me veio uma certa vontade de ir ao banheiro. Ali na área da largada procurei pelo banheiro químico e desta vez o intestino funcionou do jeito que eu esperava. Estava enfim pronto pra largada!

A largada aconteceu pontualmente às 05:00, ainda durante a fria madrugada e bem antes do nascer do sol. Um show de luzes marcava o local, com direito a fogos de artifício ao final da contagem regressiva. A organização realmente caprichou nesse aspecto. E por serem apenas pouco mais de 600 corredores, todos dispostos a encarar uma prova longa, não houve tumulto algum na largada. Todo mundo saindo tranquilamente, sem grande afobação nem empurra-empurra. Tampouco se ouvia muita gritaria ou gente conversando. Afinal, a prova ia demandar muita energia e não valia a pena ficar se desgastando à toa no começo.


Eu não tinha nenhuma meta de tempo estabelecida. Só não queria que fosse um sofrimento acima das 5 horas, e para isso não queria precisar caminhar. Sabia que não devia forçar muito no começo para não sentir o cansaço mais pro final. Enfim, algo que aprendi com a experiência de anos de corrida. Dados os treinos mais longos, sabia que podia mirar em manter o ritmo de 6min/km pelo menos no começo, e depois ir dosando conforme a prova se desenvolvesse. Logo nos primeiros 2 quilômetros virei com as parciais de 5:50min/km. Estava frio e nublado, mas sem chuva. Como, aliás, foi o clima durante o mês todo que antecedeu a maratona. Enfim, passei pelo cartão postal do Arco da Inovação (o nome da ponte estaiada em forma de arco). Diga-se de passagem, das inúmeras corridas de rua de São José dos Campos, a Maratona é a única que passa por ele. A seguir tomei o rumo da Farma Conde Arena, um ginásio poli-esportivo que também é utilizado como ponto de concentração para algumas corridas da cidade. Seja como for, fui mantendo um bom ritmo e passei pela parcial dos 10km com cerca de 58min30seg de prova, sempre virando próximo à marca dos 6min/km. E também me mantendo fiel à estratégia de hidratação e reposição de carboidratos que eu havia traçado e que descrevi mais acima.

No km12, primeiro posto de isotônico, acabei caminhando. Mas não por sentir cansaço ou coisa parecida. E sim porque era simplesmente impossível (pelo menos para mim) tomar o líquido sem derramar do copo e fazer uma lambança. Mas logo que finalizei retomei o bom ritmo. Porém, no km19, acabei marcando uma parcial ruim: 6:20min/km! Nessa hora fiquei preocupado, pois era muito cedo para ter uma queda de desempenho acentuada (o famoso muro da maratona).

Fiquei atento ao tempo nos quilômetros seguintes. Passei pelo km20 perto de 1h58min, ou seja, fazendo em cerca de 1h os últimos 10km. E passei pela marca da meia maratona com 2h05min, mantendo a parcial de 6min/km. Nesse momento, lembrei-me de um episódio esportivo interessante. No ano de 2017, no SuperBowl, a grande final da NFL, liga de futebol americano dos Estados Unidos, o New England Patriots perdia por 28-3 no início do terceiro período. Eu já estava quase desligando a tv e indo dormir pois o jogo parecia definido. Resolvi dar uma chance, pois se acontecesse uma virada histórica eu jamais me perdoaria. E logo o Patriots foi reagindo, pontuando, e empataram o jogo no último minuto! Pela primeira vez em 51 edições o SuperBowl foi para a prorrogação. E o Patriots acabou prevalacendo e ganhando a partida. Logo após o jogo, perguntaram ao técnico Bill Belichick o que ele havia contado ao time para motivá-lo a buscar a virada. E a resposta dele foi um tanto simplória: disse que eles estavam ali na final do campeonato pelo que eles treinaram e jogaram ao longo de toda a temporada. Então que eles deviam apenas se concentrar e fazer o jogo deles, que o resultado viria.

Ok, no futebol americano você enfrenta um adversário, então isso não é tão simples quanto parece. Mas trazendo essa reflexão para a minha realidade, meu maior adversário era eu mesmo. E talvez a minha mente. Ou as travas invisíveis que ela coloca. Por exemplo, uma parcial ruim em um quilômetro não significa que já encontrei meu limite. Eu estava me sentindo bem. Comecei a rodar bem novamente nos quilômetros seguintes, alguns deles rodando abaixo de 6min/km. Mantive-me fiel à estratégia de hidratação e carbo-gel, sem me afobar, e logo já estava chegando no km30, com apenas 3h01min de prova. Novamente uma parcial de cerca de 1h nos 10km anteriores. E sem caminhar.

Nesse ponto tive certeza de que completaria a prova. Iniciei então uma verdadeira contagem regressiva a cada quilômetro que completava. Peguei o isotônico no km28 e depois no km31 também (o posto era o mesmo, apenas que passei por ele novamente após um retorno na mesma via). Havia distribuição de mini-coca também nesse posto e vi bastante gente pegando. Achei estranho, mas já tinha ouvido falar que algumas pessoas tomava por conta do sódio e do açúcar. Mas como eu não havia treinado dessa forma, achei melhor não arriscar e portanto dispensei. Cruzei então o km33 em ritmo bom e com 3h24min (bem abaixo das 3h33min do meu treino mais longo). Enfrentei a subida do km36 para pegar o viaduto. Cheguei a ultrapassar algumas pessoas caminhando nesse ponto. Mas eu continuava no meu ritmo. Cheguei a embalar na descida do  km37 e acho que fiz a parcial abaixo de 6min/km. A corrida tava no papo! Veio o km39 e uma nova separação no percurso entre quem vinha pra maratona e quem fazia as outras distâncias: o pessoal da maratona ainda precisava fazer um "vai-e-volta" adicional antes de passar para o outro lado da avenida e cruzar a linha de chegada. Isso é um pouco frustrante, principalmente pois nesse pontos você já enxerga a chegada ali do outro lado da avenida.

E então foi nesse ponto que encontrei o muro, virando a 7min10seg no km40. Finalmente veio aquela sensação de correr sem sair do lugar. O cansaço realmente batia. Aquela euforia da descida do km37 talvez fosse o que alguns chamam de "barato da maratona", que antecede a chegada do muro. Mas a prova já estava ali nos finalmentes. Eu já via a linha de chegada do outro lado. Segui em frente, passei pelo km41 novamente acima dos 7min/km. Nesse momento todo o filme começou a passar na minha cabeça. As maratonas anteriores, a escolha pelo doutorado, a pandemia, a dificuldade de dormir com a chegada do bebê, o reinício das minhas corridas em 2024 com uma prova de 10k, a escalada para distâncias maiores, 15k (São Silvestre), 21k e todo o treino da maratona. Novamente a lembrança do discurso do Bill Belichick sobre o que me trouxe até aqui. E o pensamento de que minha família estava em casa me esperando para o almoço.

E em meio a todo esse pensamento, um senhor me ultrapassa dizendo que ia pegar meu pódio. Respondo dizendo que era todo dele, que ele merecia. E começo a ver muita gente próxima as grades na lateral do percurso me incentivando para concluir a prova. Assim como em provas de grande apelo popular, como a Tribuna em Santos, a São Silvestre ou a Maratona do Rio. Com esse combustível e a visualização do pórtico da chegada, acelero e inicio um sprint final que termina com um sonoro berro de liberação ao cruzar a linha de chegada!

Sim, foi uma liberação. Depois de 12 anos, concluí novamente a maratona. E dessa vez sem caminhar. Com um tempo líquido de 4h23min38seg. Bem abaixo das 5 horas. Abaixo até de 4h30min. Um tempo de respeito para uma "primeira maratona" (afinal, depois de tanto tempo foi como se fosse a primeira). 

Dos 620 inscritos, 413 homens e 67 mulheres concluíram a prova. Fui o colocado número 250 na classificação do masculino. Mas não era pra me comparar com ninguém que corri, senão que comigo mesmo.



Pra finalizar, como não poderia deixar de ser, deixo as estatísticas de altimetria e as parciais medidas pelo meu relógio. Além, é claro, da foto da medalha!